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Refundação da IFES

Nerivaldo Góes, Folha Dirigida de 26.05.2006PRÉ-CANDIDATO AO PLANALTO AFIRMA QUE COTAS NÃO RESOLVEM A EXCLUSÃO SOCIAL
Nerivaldo Góes, Folha Dirigida de 26.05.2006
O senador Cristovam Buarque esteve em Salvador na última semana, onde discutiu assuntos referentes à educação superior e à nova formação profissional. Em entrevista exclusiva à FOLHA DIRIGIDA, o senador afirma que o Brasil é um país de imensa desigualdade entre classes e cidades, o que faz com que 10% dos ricos detenham 50% da renda nacional, sendo que 18 milhões de pessoas têm renda per capita de R$3 mil. Ou seja, 21,4 vezes superior à renda per capita dos 50% mais pobres, e 90 milhões de brasileiros com renda mensal de R$140.

O senador destacou que cidades como Brasília, Caxias(RS), São Paulo, entre outras, chegam a ter renda per capita 30 vezes maior do que as cidades mais pobres. Segundo ele, para quebrar esse círculo vicioso e reverter a desigualdade, é necessaria a promoção da igualdade de oportunidades, por meio da educação de qualidade para toda a população. Cristovam Buarque salienta que é preciso “refundar” as universidades federais e públicas, quando também fala sobre os pontos negativos e positivos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb). Para ele, “o Fundeb não vai resolver, nem de longe o problema da educação básica no Brasil”. Em termos de Bahia, o senador diz que a chegada da Universidade Federal do Recôncavo (UFRB) é um ponto positivo, embora não se constitua em grande salto na educação. Confira a entrevista.

Atualmente, quais os principais desafios das universidades das federais?
Cristovam Buarque – Os principais desafios das universidades federais é perceber que, da mesma maneira que elas existem, também há instituições particulares na atual situação em que ela está, não respondendo aos desafios que se põem diante do saber de nível superior. A universidade ficou velha, esse é o principal desafio: rejuvenescer a universidade. Ou então o chamado “re-fundar”. A universidade envelheceu porque, hoje, o conhecimento atende o ambiente externo mais depressa do o interno. O conhecimento se produz e se espalha mais rapidamente do que a universidade é capaz de fazê-lo. Você não precisa mais estar na universidade para ser um bom profissional. Ela não percebeu que também que adianta dar um diploma e pôr o aluno na rua. A educação hoje é permanente, você tem que estar sempre reciclando os alunos que estão terminando os cursos. Há uma quantidade de mudanças que estão ocorrendo no mundo e que a universidade não está percebendo. É um erro achar que o problema da universidade é falta de dinheiro. O problema da universidade é falta de sintonia, na velocidade que o mundo adquiriu, com a mudança e estímulo ao conhecimento. A falta de dinheiro é uma conseqüência dessa falta de sintonia.

Quanto ao Fundeb, quais os pontos positivos e negativos da proposta que tramita no governo federal? Este fundo vai resolver o problema da educação básica no Brasil?
Cristovam Buarque – Não vai resolver nem de longe. Vai ajudar a melhorar. O Fundeb não vai piorar a educação. Um dos problemas do Brasil é que a gente compara a nossa melhora com nós mesmos em vez de comparar com os outros países. Mesmo quando avançamos, somos devagar e os outros países muito muito rápidos. O importante na educação e no cenário do mundo global não é só melhorar, mas melhorar numa velocidade equivalente ao do resto do mundo. Quais são os pontos negativos do Fundo? Primeiro, a proposta que veio do governo já foi modificada no congresso. E o defeito de ser um fundo que só agora está dividido. Um para o ensino infantil, outro para o fundamental e médio, portanto vai ter uma percentagem maior. Se não fosse dessa forma, teria que tirar dinheiro do ensino fundamental e do ensino médio. Colocamos agora que os quatro bilhões e meio previstos serão aplicados agora e não em 2010, como está previsto na proposta do governo Lula. E uma emenda minha de que não se possa contigenciar o dinheiro do Fundeb, ou seja, tem de se gastar integralmente, mas mesmo com essas mudanças que fizemos, o Fundeb vai ajudar, mas não vai mudar substancialmente a educação brasileira. A preocupação maior é com o ensino superior, por conta do atual governo.

Com a chegada da Universidade do Recônvavo na Bahia, haverá um salto qualitativo na educação da região?
Cristovam Buarque – Claro que é que positivo que tenhamos mais uma universidade na Bahia, mas isso não vai dar nenhum salto na educação. Isso vai dar mais vagas a alguns jovens que terminaram o ensino médio. A verdadeira revolução na educação é todo jovem terminar o ensino médio com qualidade. O que vai mudar educação não é disponibilizar mais vagas nas universidades, e sim menos exclusão no ensino médio. Essa que é a revolução. Primeiro, os que vão entrar nas universidades terão de ser muito bons porque vão disputar entre muitos e não com poucos. Segundo, haverá uma pressão para que não venha apenas uma, e sim dez. Hoje vem uma e já basta. Então o problema não está em mais uma universidade e sim em menos exclusão no ensino básico.

Para alguns especialistas da área educação, uma grande parcela de professores não consegue produzir conhecimentos e sim reproduzir. Como o senhor analisa essa questão?
Cristovam Buarque – É mais grave, mas a estrutura universitária não facilita produzir conhecimentos, apenas transmitir. A verdade é que grande parte das universidades públicas e particulares se transformaram em escola de terceiro grau, e não em centro de geração de transmissão de conhecimentos. Isso pela estrutura, e não só pela característica do professor. Quer ver uma questão de estrutura? Para se fazer um doutorado no Brasil leva-se cinco anos. Em cinco anos todo o conhecimento da área já mudou. Quando o doutorando termina a tese, ele já está superado no Brasil. O conhecimento muda de um ano para o outro. Você pode virar doutor em um ano, mas daqui a dois anos tem de defender outra tese. O doutorado deveria ser um diploma provisório. Você não é doutor, você está doutor. E a cada dois, três anos tem de escrever um livro, produzir uma tese, e submeter outra vez o seu novo conhecimento. E aquele que põe o diploma na parede e se aposenta não serve mais. Certo dia me perguntaram se eu me consultaria em um médico que tivesse se formado em menos de dois anos. Eu disse “só vou a médico que não se formou ainda. Aquele que ainda está estudante, se reciclando, se aperfeiçoando. Ele tem o diploma, mas não é formado porque o conhecimento muda todo dia. A estrutura da universidade hoje não facilita ela ser geradora de conhecimentos porque ela é devagar, lenta.

O que é preciso ser feito para reverter essa situação?
Cristovam Buarque – É preciso a “refundação” da universidade brasileira de forma profunda que mude a sua estrutura e que redefina um ensino permanente, e o prazo de formação. Acho que o aluno com dois anos já pode ter atividades profissionais em alguns cursos. Em compensação, daqui a dois anos ele deve ter outro diploma e assim sucessivamente. Acho que em vez de ter departamentos, deveriam existir núcleos temáticos; tem que haver liberdade para criar novos departamentos e fechar alguns; tem que haver dinâmica, tem de aumentar o ensino a distancia, ou seja, não precisa mais o aluno vir todo dia para curso ele pode acompanhar parte do curso na casa dele.

Qual a sua opinião sobre a proposta de cotas nas universidades?
Cristovam Buarque – As cotas não resolvem o problema da exclusão racial e social no Brasil, as cotas são um “jeitinho”, mas são necessárias, eu acho. O que resolve o problema inclusive do preconceito racial é uma educação de qualidade e gratuita desde do ensino infantil até o fim do ensino médio. Quando todas as crianças tiverem uma educação com a mesma qualidade no Brasil, acabou o preconceito. Entrará na universidade quem for mais competente, e aí, a disputa será em pé de igualdade. Mas hoje a situação não é essa. Hoje os negros por serem em sua grande maioria pobres têm uma educação mais baixa do que os brancos. Dessa forma, temos um quadro universitário branco e ausente de negros. E isso deforma a realidade social brasileira. A maneira de quebrar esse ciclo é utilizar as cotas para estudantes negros. Então, ao meu ver, a política de cotas é uma necessidade provisória até que o Brasil tenha uma escola pública de qualidade para todos.

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