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Simon Schwartzman: O crítico da ciência (*)

 (*) Trecho da entrevista de Simon Schwartzman: Revista Pesquisa Fapesp -outubro/2007

• Como o senhor próprio escreveu em um artigo recente, a reforma universitária terminou antes de começar. Por que às vezes as perspectivas de mudanças parecem tão difíceis e remotas?

  • Você deve estar se referindo ao projeto de reforma de Tarso Genro, muito mal concebido, que provocou muitas reações e que parece na prática ter sido abandonado pelo ministro Fernando Haddad. Na época do governo Fernando Henrique Cardoso, o Paulo Renato de Souza, como ministro da Educação, tentou mexer com as universidades públicas, dando-lhes mais autonomia e responsabilidade pela qualidade de seus resultados e uso adequado de recursos. Houve uma reação contrária muito forte e nada se fez. Na época do Itamar Franco, todos na universidade gostavam de Murilo Hingel, o ministro da Educação; ele sempre elogiava as universidades e não tinha nenhuma política para o setor. O atual governo faz também um pouco isso. O governo Lula tem uma política explícita de aumentar os recursos para as universidades públicas e ao mesmo tempo enfraqueceu o principal instrumento de avaliação que existia no setor, que era o antigo provão. As principais políticas do governo federal para o ensino superior têm sido na área da inclusão social, pelas cotas raciais e pelo ProUni, o Programa Universidade para Todos. Em ambos os casos a ampliação do acesso tem sido feita sem nenhuma política para garantir que os cursos são de qualidade e que os alunos terão condições efetivas de compensar suas deficiências de formação e completar seus cursos. Agora começa a haver alguma preocupação com isso, e algumas experiências interessantes, como a tentativa, em algumas universidades federais como a da Bahia e a nova universidade federal do ABC, de introduzir um formato semelhante ao do processo de Bologna europeu, que adia o momento de escolha profissional para os estudantes que entram no ensino superior. A universidade pública brasileira é pequena para as necessidades do país, custa muito caro em termos de gastos por estudante, não tem um sistema bem definido de controle de qualidade e subsidia muitos estudantes de classe média e alta que poderiam estar pagando pelos seus estudos. Mas quase 80% do ensino superior brasileiro é privado, com coisas boas e ruins, e não existem políticas positivas para o setor, somente a suspeita permanente de que ele é ilegítimo e não deveria existir. É preciso começar a discutir mais a fundo para que estamos financiando esse sistema todo, o que devemos esperar das universidades públicas, dentre as quais estão as que concentram a pesquisa, e qual o papel da educação superior privada. Os governos têm sido complacentes e preferem atender às demandas de curto prazo, sem criar problemas, a pensar num projeto a longo prazo.

• Qual sua perspectiva?

  • Não vejo atualmente nenhum esforço sério em mexer nem na questão da pesquisa, nem do ensino superior. Para muitos pesquisadores, a idéia que têm sobre política científica se limita a pressionar para que o governo dê mais dinheiro para seus projetos. Mas dinheiro não é suficiente. Na Europa e em muitos países da Ásia está havendo um grande movimento para concentrar recursos de pesquisa em algumas universidades que possam atingir padrões internacionais de qualidade de pesquisa, inovação e formação, e funcionem como referência para as demais e ponte efetiva para a produção cientifica e intelectual do resto do mundo. No Brasil, a USP poderia ter esse papel, pelo seu orçamento e a massa de recursos humanos de qualidade que possui. Mas, se olharmos por exemplo o famoso ranking das universidades publicado pela Universidade de Jiao Tong na China, a USP, que é a melhor da América Latina, aparece no grupo na posição 102-120, ou seja, não tem presença internacional. Não existe hoje, no Brasil, nenhuma política deliberada de excelência, nem do governo de São Paulo, nem do governo federal, e há muitos que pensam que falar em excelência e competição por qualidade não são coisas politicamente corretas. As universidades de excelência atraem talentos, recursos e conhecimentos de toda parte, e criam circuitos internacionais de contatos e prestígio para seus países. Por que instituições como a USP ou a Unicamp não abrem mais seus programas de pós-graduação para alunos de outros países da América Latina? Uma das razões é que, como são públicas, não poderiam cobrar dos alunos. Nem sempre também se sabe como selecionar esses estudantes, porque a seleção é toda em português e formal. O sistema todo é muito rígido. A dimensão internacional fica capenga porque temos uma concepção muito provinciana e fechada do que é uma universidade.

 

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