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“Ciência Fashion”

Fonte: Folha de São Paulo 13/01/02

Levantamento inédito feito com base em dados da Capes mostra que a física vem perdendo espaço para a biologia no Brasil. Entre os indicadores que demonstram esse movimento estão as bolsas de mestrado. Em 80, todas as ciências biológicas juntas receberam 299 bolsas, contra 208 dadas a física. Vinte anos depois, em 2000, as biológicas obtiveram 707 estipêndios, contra apenas 190 destinados aos físicos.

Várias causas concorrem para explicar essa mudanca. Há razões estruturais, como o aumento do número de pesquisadores nas ciências biológicas, e circunstanciais, como a visibilidade que a biologia, especialmente a genética, ganhou no campo internacional. Vale lembrar que 2000 foi o ano do sequenciamento do genoma humano, feito científico que foi comparado, não sem algum exagero, a chegada do homem a Lua.

O fenomeno do crescimento da biologia não está restrito ao Brasil, ocorrendo também no exterior. Existem até motivacoes políticas. Gastos públicos em pesquisas que possam conduzir a avancos médicos tendem a ser mais bem aceitos pelo contribuinte do que investimentos em
ciência básica, cujos beneficios são incertos e difíceis de explicar.

É muito mais fácil justificar para a opinião pública o financiamento de um projeto como o Genoma Humano do que a construção de um acelerador de partículas, por exemplo.

Essa, contudo, é uma visão limitada da ciência, ainda que não ilegítima. Ela parte do pressuposto de que existe uma divisao clara entre medicina e física, por exemplo. As coisas não se dão exatamente dessa maneira. A medicina como a conhecemos hoje depende de aparelhos como microscópio, raios X etc. E esses instrumentos, entre dezenas de outros, são, antes de tudo, conquista de físicos. A ciência nem sempre respeita as denominações que as Universidades criaram para elas. Há cada vez menos sentido, por exemplo, em diferenciar biologia de físico-química.

Ainda que o público em geral se mostre disposto a financiar com o dinheiro de seus impostos a pesquisa em medicina, mas não necessariamente em física ou matemática, as exigencias da ciência dificilmente vão respeitar esse capricho.

Até faz sentido reorientar parte dos investimentos estatais para pesquisas que possam resultar em aplicações práticas, como a biotecnologia. Mas essa reorientação deve ser parcial e jamais resultar no abandono de áreas que pareçam”pouco práticas”.

A boa ciência trabalha com hipóteses, cujas consequências nem sempre são visíveis nos primeiros momentos. A maioria das aplicações médicas ou tecnologicamente relevantes surgem de conhecimento anterior que foi obtido no curso de uma investigaçãção que não visava a propósitos práticos, mas a entender um dado fenômeno. É essa pesquisa descompromissada que normalmente leva o nome de ciência básica. E a ciência básica, em toda parte do mundo, é majoritariamente financiada com verbas públicas, que não deveriam exigir recuperação dos investimentos nem seguir o último grito da moda.

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