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CONCURSO NA UFJF

Por vários autores

Para que serve um concurso publico para Professor de Física numa Universidade? No meu entendimento, serve para selecionar um profissional capacitado a ensinar, a desenvolver pesquisa e a orientar alunos de graduação e pós-graduação. A publicação de…artigos vem como conseqüência destas atividades. O papel da banca de concurso e avaliar as habilidades dos candidatos e aprovar apenas os aptos. E dever da banca reprovar os inaptos!
Não foi isso que aconteceu num dos concursos realizados em dezembro de 2008 no Departamento de Física da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). A banca era constituída por um professor da UFJF, Dr. Virgilio Carvalho dos Anjos, e por dois professores da Universidade Federal de Viçosa (UFV): Dr. Alexandre Tadeu Gomes de Carvalho e Dr. Sukarno Olavo Ferreira. Apenas uma pessoa inscreveu-se neste concurso e será designada por Candidato. A prova didática foi assistida por dois professores do Departamento: Dr. Guilherme B. Peixoto e eu. O tema da aula foi “Leis de Newton”. O Candidato, portador de três diplomas concedidos pela USP, demonstrou não ter nenhum entendimento da estrutura lógica das Leis de Newton ; afirmou que a lei da inércia e um caso particular da segunda lei

e que a terceira lei pode ser deduzida a partir da segunda lei. Mais grave do que isso, o Candidato mostrou que desconhece as propriedades básicas dos vetores. Ao desenvolver o exemplo de uma massa em equilíbrio sobre um plano horizontal, sob a influencia da forca peso e da forca normal, o Candidato escreveu:

Ao explicar a colisão entre duas massas, o Candidato escreveu:

Quociente de vetores !

E qual foi a decisão da banca? O Candidato foi APROVADO . Como a banca e soberana, esta pessoa ocupara a vaga de Professor Adjunto no Departamento de Física da UFJF.
Eu gostaria de levantar algumas questões:

1)     Os professores da UFV aprovariam esta pessoa num concurso do próprio departamento?

2)     Que disciplinas o Departamento de Física da UFJF atribuirá a esta pessoa?

3)     Quantos e quais alunos deverão “aprender” Física com esta pessoa?

4)      Como esta pessoa obteve os seus diplomas da USP, uma universidade conceituada?

A conclusão e que todos os sistemas de avaliação falharam. Uma pessoa, que não sabe Física nem Calculo Vetorial, obtém o Titulo de Doutor em Física e torna-se Professor Adjunto numa Universidade Federal. O que nos, membros da Sociedade Brasileira de Física, podemos fazer a respeito deste fato gravíssimo? Pedir aos avaliadores que avaliem? Pedir aos professores que reprovem os alunos que não aprenderam? Pedir aos membros de bancas que julguem pela competência e não pela simpatia? Acho muito pouco apenas pedir e esperar que as pessoas atendam ao pedido. Gostaria que houvesse um código de ética na nossa profissão e que os maus profissionais sofressem as conseqüências dos seus atos.

Maria Luiza Bedran – Prof. Associada da UFRJ em atividade na UFJF

______

O concurso público da UFJF envolve quatro etapas: prova de títulos, prova escrita, prova didática e defesa de projeto de pesquisa. A prova didática é constituída por uma aula, versando sobre tema previamente sorteado, seguida de argüição. O projeto de pesquisa também é seguido de argüição. Em época de excesso de oportunidades, as instituições do interior recebem um número de inscrições reduzido. Neste concurso, o único candidato inscrito possuía graduação, mestrado e doutorado pela USP, artigos publicados, experiência no ensino superior além de estágios no exterior e no próprio Departamento de Física da UFJF.

O candidato apresentou bom desempenho em todas as etapas, exceto na aula da prova didática; única seção a que os professores Dra. Maria Luiza Bedran e Dr. Guilherme B. Peixoto se dispuseram a assistir. Na seção de argüição, que seguiu a aula, ficou evidente para a banca que o desempenho comparativamente inferior ao das demais etapas deveu-se à pressão emocional do momento; tendo sido atribuída a esta prova à menor nota.

O parecer emitido pela professora Dra. Maria Luiza Bedran se pauta unicamente pela prova didática. Unicamente, com base na observação da aula, ela julgou como inapto o candidato, como desprovida de ética a banca e como incapaz de ensinar e avaliar a USP.

A banca deseja aqui repudiar o manifesto da professora e ratificar o resultado do concurso.

Dr. Virgílio Carvalho dos Anjos (UFJF)

Dr. Alexandre Tadeu Gomes de Carvalho (UFV)

Dr. Sukarno Olavo Ferreira (UFV)

Comentário do Editor

As manifestações anteriores da professora Maria Luiza Bedran e dos professores Virgílio Carvalho dos Anjos, Alexandre Tadeu Gomes de Carvalho e Sukarno Olavo Ferreira me encorajam a fazer o comentário geral que se segue, independente do caso particular do concurso na UFJF, e sem entrar no mérito específico desse caso.

Já tenho me manifestado sobre o assunto em diversas ocasiões, inclusive nesse boletim. As avaliações científicas implementadas no país, ao enfatizarem exclusivamente as publicações num processo numerológico de contagem de “papers” e parâmetros de impacto, geram graves distorções.

Dentre essas, a que reputo mais grave é o abandono quase completo de uma sólida formação conceitual em nossos cursos de pós graduação e que também se estende aos de graduação. O diagnóstico desse sério problema pode ser obtido pelo desempenho dos jovens doutores nos concursos públicos de ingresso em nossas universidades. O caso presente da UFJF é apenas mais um da enorme e antiga sequência. Repito abaixo trecho de uma de minhas últimas manifestações (para ficar apenas no passado recente) publicada no número 011 de outubro de 2007.

Talvez o pior aspecto resultante da estapafúrdia competição induzida pelas agências de fomento seja a péssima formação oferecida à grande parte dos pós-graduandos. Posso dar meu testemunho pessoal como participante de inúmeras bancas de concurso na área de Física das melhores instituições do país. Os candidatos, em geral, apresentam ótimas listas de publicações científicas nas melhores revistas. No entanto fracassam em massa quando lhes são propostas questões básicas sobre conceitos fundamentais que qualquer professor de Física deve necessariamente dominar. Isto acontece porque o estudante é muitas vezes treinado para realizar com sucesso apenas aquelas tarefas diretamente ligadas com as publicações que resultarão de seu trabalho, em colaboração com seu orientador. A formação geral, sólida, nos conceitos fundamentais de sua disciplina, é relegada a segundo plano frente à premência da publicação. Os estudantes são aprendizes de feiticeiro a repetir involuntariamente a prática profissional deturpada que as agências de fomento induziram nas mentes de seus orientadores. É uma perigosíssima bola de neve.

Paulo Murilo Castro de Oliveira

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Boletim [005/2009]

Mais sobre conceitos básicos e concursos (Luiz Felipe Coelho, Professor do IF-UFRJ)  Há dois pontos a complementar ao que disseram os colegas Maria Luiza Bedran, Paulo Murilo e membros da banca.  O primeiro é a evidente falta de avaliações integradoras ao longo do curso de graduação de Física. No Reino Unido, por exemplo, a aprovação em cada disciplina não é o mais importante e sim:

(a) as reuniões semanais com o orientador e (b) a prova genérica ao final de cada ano. Aqui no Brasil o estudante é (a) saturado com aulas expositivas, que lhe dão pouco tempo para o estudo independente, e (b) levado a ver a aprovação em cada disciplina como um evento independente da aprovação em todas as outras. O aluno assim não vê o profundo vínculo entre as disciplinas, o que resulta na necessidade de cada uma rever em detalhe conceitos vistos nas outras.

Alguns alunos se sentem até injustiçados se uma matéria avançada exige conhecimentos básicos de Física e de Matemática, ensinados no Ensino Médio ou nos primeiros semestres da universidade. Similarmente minha evidência assistemática de comissões de seleção de candidatos à pós-graduação na UFRJ é a de que as questões mais erradas são as associadas a assuntos vistos nas disciplinas básicas e as mais acertadas são as de assuntos mais formais, vistos nos últimos semestres. As questões fenomenológicas ficam no meio termo.

Questões, todas de física básica, de provas que participei e que também tiveram notas em média bem baixas, com diversos candidatos as deixando em branco: “descreva os princípios de funcionamento de um laser” (Física IV), “fale sobre o magnetismo em meios materiais”(Física III), “esboce o gráfico do calor específico de moléculas diatômicas como função da temperatura” (Física II) , ou “dados os valores médios e as incertezas dos comprimentos das arestas de um paralelepípedo ache o valor médio e a a incerteza do volume” (laboratório de Física I). Por exemplo, uma vez eu dava aula de Física I para a Geologia e estava na comissão, onde perguntei nessa prova de seleção a mesma questão do Halliday que eu perguntara numa das provas de Física I.

Na questão um asteróide colidia com a Terra (com sua trajetória contida no plano equatorial) e era necessário saber que grandezas se conservavam e a partir daí calcular a variação da duração do dia. Dois dos 11 candidatos disseram que era um choque elástico e que a grandeza que se conservava era a energia mecânica, ou seja a Terra e o asteróide são ambos esferas rígidas indeformáveis, não há dissipação de energia, nem no choque nem enquanto o asteróide atravessava a atmosfera, e este volta para o espaço, um modelo visivelmente errado. Os dois candidatos eram bons alunos!

A saída mais simples é termos uma disciplina ao final de cada ano, onde os alunos tivessem uma carga horária pequena com aulas de revisão, e onde a aprovação fosse baseada em provas de todos assuntos vistos nesse ano e nos anteriores. Essa saída teria o problema de que há uma heterogeneidade de instituições e seria difícil para uma banca comparar candidatos caso estes viessem de instituições diferentes. A saída um pouco mais trabalhosa masmais justa seria termos na SBF o equivalente ao Exame da OAB e cuja nota poderia ser usada nos concursos de ingresso nas pós-graduações ou na carreira docente.

O segundo ponto é que o atual formato dos exames para ingresso na carreira docente é pesado para os candidatos e para as bancas. Já vi pessoas extremamente nervosas errarem coisas banais ou então entrarem em pânico ou ficarem afônicos. O nervosismo é humano e explicaria por exemplo, esquecer de colocar módulos nos vetores. Claro que há erros não justificáveis, como dizer que a terceira lei de Newton é derivada da segunda.

Para diferenciar estes dois casos precisamos de mais exames genéricos.  Frequentemente há o exame de títulos, um seminário para explicar os projetos de pesquisa que o candidato quer desenvolver, e, baseado num conjunto de livros-texto definidos pelo departamento, há uma prova escrita e uma prova de aula. Num concurso, digamos, com 20 ou 30 candidatos a banca ouve 20 ou 30 aulas idênticas ou então sorteia pontos distintos para cada dia (introduzindo uma desigualdade entre os candidatos) e ouve “apenas” 8 aulas iguais por dia. A meu ver se o candidato tem habilidade para expor de uma maneira persuasiva e clara o tema que lhe interesssa mais (sua linha de pesquisa) ele tem habilidade para dar uma boa aula, providenciado que ele sabe o conteúdo da graduação de física. Verificar se ele realmente sabe esse conteúdo de graduação precisa ser uma função quer da própria universidade, quer da SBF, quer das duas. Esse “exame da OAB” poderia ser até um critério de corte para a inscrição do candidato.

Abraços, Luiz Felipe Coelho – professor do IF-UFRJ

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Boletim [006/2009]

Mais sobre concursos (Alberto Saa – UNICAMP)

Recentes comentários publicados aqui sobre o mau desempenho de nossos doutores em concursos para cargos de Professor Universitário suscitaram-me algumas considerações que pretendo aqui expor. Talvez soem como truísmos, mas acho que vale a pena discutí-las uma vez mais. Tenho certeza que, em essência, tudo que será discutido aqui se aplica à Matemática e, desconfio, também à Química.

Infelizmente, o que foi descrito pela Prof. Maria Luiza Bedran e corroborado pelo Prof. Paulo Murilo tem sido mais comum do que gostaríamos. Vários candidatos com, aparentemente, sólidas publicações especializadas demonstram surpreendente ignorância em Física Básica. Concordo com os diagnósticos apresentados pelo Prof. Paulo Murilo (demasiada pressão por publicar das agências de financiamento) e pelo Prof. Luiz Felipe Coelho (problemas em nossa graduação). Sou, porém, muito cético com relação à viabilidade instituicional, legal e até à legitimidade da SBF (ou de qualquer outro orgão) operar como uma espécie de conselho regulador de nossas atividades. Notem que, aqui, comento apenas sobre o papel dos nossos doutores como Professores, não tenho intenção de discutir agora outros aspectos das atividades dos físicos fora da Universidade.

Gostaria de descrever um processo de seleção que tem sido utilizado recentemente para cargos de Professor. Considero que os concursos realizados seguindo-se este processo foram os mais equânimes que presenciei. Estive pessoalmente envolvido em vários deles, na UFABC e na UNICAMP. Os concursos em nossa área, como é bem sabido, têm tido um grande número de candidatos. No processo em questão, estes candidatos são submetidos a uma prova escrita eliminatória de Física Básica. A prova é composta por questões objetivas básicas e elementares, mas obviamente não triviais. O detalhe crucial é que a correção é cega, i.e., os candidatos não são identificados. A banca estabelece uma nota de corte mínima e apenas aqueles que a superam podem passar para a segunda fase, que é o nosso concurso habitual, onde os candidatos têm chances de mostrar uma maior erudição e profundidade em suas áreas de trabalho. Dessa maneira, teoricamente, teríamos, ao final do concurso, selecionado os melhores pesquisadores que efetivamente *possuem* um mínimo domínio dos aspectos básicos da Física.

Aqui chegamos a um ponto talvez polêmico que merece ser melhor exposto. Meu último parágrafo parece sugerir que pode haver bons pesquisadores sem o mínimo domínio dos aspectos básicos da Física. Isto é possível? Pode-se falar em supercondutividade sem se dominar o oscilador harmônico? É possivel fazer cosmologia atrapalhando-se com ortogonalidade de vetores em R3? Supercordas sem saber as Leis de Newton? Eu tenho minha opinião pessoal, mas ela aqui é irrelevante. Nossa comunidade atingiu um nível médio de maturidade que permite responder essas perguntas circunstancialmente. Se algum grupo consolidado específico, por exemplo, prefere ou necessita um determinado especialista em um determinado instante, e decide contratá-lo como pesquisador mesmo com notórias deficiências básicas, não serei eu quem criticará. Imagino que o grupo, em princípio, sabe o que faz. Porém, deve ficar claro que este *não* pode ser de maneira nenhuma o padrão de comportamento geral nas Universidades, principalmente em épocas de expansão de vagas, como vivemos neste exato momento. O papel do Professor de Física na Universidade é muito mais amplo do que sua área de pesquisa. Neste ponto, tenho que ressaltar, uma vez mais, o fundamental papel do *ensino*. Seria nossa finalidade formar (na graduação) mais físicos para trabalharem em nossas próprias áreas de pesquisa? A resposta é claramente não. Nosso papel fundamental é transmitir a Física para jovensque em sua grande maioria não serão físicos, basicamente para futuros engenheiros, e este papel somente pode ser desenvolvido com propriedade por quem domina o oscilador harmônico, vetores em R3 e as Leis de Newton.

Tenho certeza que a preparação de uma nova geração de engenheiros cientificamente capazes é um dos nossos mais importantes e prementes desafios. Mais que isso, temo que também somos culpados, provavelmente por omissão, pela conhecida debilidade na formação científica básica de nossos engenheiros. Não preciso comentar aqui os enormes prejuízos causados por esta debilidade de formação à nossa Sociedade. Não vejo outra saída para esta situação que não seja priorizar de alguma maneira o conhecimento de Física Básica nos concursos de acesso às carreiras de Professor Universitário. O processo citado acima é uma sugestão que tem provado dar bons resultados.

Alberto Saa – UNICAMP

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