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CARTA ABERTA AO PROF. GILBERTO ODO

Por Cesar Cusatis

Caro Prof. Gilberto Odo,

Acho a tua iniciativa para melhorar o Departamento de Física da UFPR muito importante e válida. Se conseguirmos convencer nossos colegas que são necessárias modificações fundamentais na UFPR creio que …ficaremos mais perto da realização dessas modificações.

Você já conhece um pouco do que eu penso sobre a UFPR, o curso de Física, o Departamento, etc.

Eu estarei aposentado compulsoriamente dentro de 7 anos e, pode ter certeza, não estou aqui defendendo meus interesses pessoais ou do nosso laboratório. Não quero qualquer cargo na UFPR. Estou defendendo idéias e princípios adquiridos nos meus 32 anos de professor.

Não sou dono da verdade mas tenho minhas convicções sobre a UFPR que, de um modo geral, são válidas para todas as Universidades públicas do país. Vou tentar falar das causas e de seus efeitos para depois apresentar sugestões para melhorar a situação ou tentar resolver os problemas.

O problema fundamental está na questão da meritocracia, como eu já disse a você. A Universidade é, por natureza, um centro de excelência. Avaliamos e somos avaliados continuamente. A estrutura acadêmica tem que ser baseada na excelência. A Universidade é intelectualmente elitista (e nunca deve ser economicamente ou socialmente elitista). Não há saída para isto. É assim nas melhores universidades do mundo. E, se queremos continuar a ser chamados de Universidade, temos que restaurar este princípio, especialmente na administração da universidade pública. Eu defendi a democratização da administração universitária quando estávamos na ditadura e quem escolhia o reitor era a amante do general do dia, em Brasília. Agora isto não vale mais. Quem tem que administrar a Universidade são os acadêmicos, ou melhor, as lideranças acadêmicas. Longe de mim dizer que tal sistema não tenha defeitos e que um bom acadêmico não pode ser um péssimo administrador. Mas não é por esta razão que deve-se abandonar o princípio. Este deve ser o princípio que, nas tuas palavras, “não abrimos mão”.

Muitos, e com certeza não todos, os problemas atuais da Universidade pública no Brasil resultam da “democratização” da administração universitária. O mais popular, o mais corporativo é o que, normalmente, é eleito e não o melhor acadêmico. Ou, quando ninguém quer o cargo, aquele que não tem o que fazer na vida se apresenta e é eleito. O corporativismo (p.ex, “o que é bom para nós, professores, deve ser bom para a UFPR”), o rebaixamento dos padrões acadêmicos, a desvalorização do professor, das aulas e do curso universitário, pelos alunos, são alguns dos efeitos dessa causa. Vale a pena ler o artigo do Rogério Cerqueira Leite (em anexo) sobre as pragas da Universidade pública.

Algumas conseqüências da “democratização” são profundamente danosas para a Universidade. Como, por exemplo,

  • Mediocrização da administração. Burocratização estúpida. Administradores com responsabilidades e sem autoridade ou vice-versa. Para os “amigos” dá-se um jeito e para os inimigos: o Regulamento. Paternalismo no trato dos alunos, professores e funcionários. Eu “quebro o teu galho” mas você tem que votar em mim.

  • Centralização exacerbada do poder de decisão, especialmente em favor dos órgãos colegiados e a conseqüente irresponsabilidade individual. Os órgãos coletivos passaram a tomar decisões administrativas e os administradores, Reitor e Pró-Reitores, passaram a fazer trabalho específico dos acadêmicos. Assembleísmo.

  • Má administração dos recursos materiais e humanos. Se, algum dia, a sociedade exigir uma prestação de contas do uso do dinheiro público na UFPR, estaremos muito mal.

  • Perda de autonomia em prol do sindicato (ANDES/APUFPR).

  • Ausência real de planejamento estratégico. Total descontinuidade administrativa.

O MEC já identificou as causas mas não conseguiu vencer o corporativismo que sustenta as administrações das Universidades públicas. Por isto a autonomia não foi implantada.

E o que pode ser feito, então?

Antes de mais nada e com a perspectiva de longo prazo, convencer nossos colegas que necessitamos de uma medida drástica: acabar com a “democraréia” na Universidade. Se a maioria estiver convencida disto estaremos mais perto da solução de problemas básicos na Universidade, conforme foi dito acima. Ou seja, quem deve administrar a Universidade são os acadêmicos, como nas boas Universidades dos países ricos: os mais sêniors (e, não necessariamente, os mais velhos) devem ser convocados (nomeados) para os cargos importantes. E esta nova administração teria que reestruturar a Universidade tendo como ponto central a descentralização do poder e o mérito acadêmico (avaliado pelos pares que, sempre que for possível, sejam de fora da UFPR ou, preferencialmente, da comunidade internacional) como fator determinante para a alocação do conjunto indissociável autoridade/responsabilidade de decisão. Talvez seria mais fácil de convencer nossos colegas de que precisamos de grandes reformas se montássemos uma comissão de alto nível acadêmico (internacional?) para avaliar e sugerir direções para a UFPR e/ou para o nosso Departamento. Existem especialista para tal tarefa ( um que eu conheço é o Roberto Lobo, ex-reitor da USP)

E soluções mais imediatas, no espaço (Departamento e curso de Física) e no tempo?

Antes de mais nada creio que o departamento deveria assumir a liderança das reformas necessárias na UFPR, não só porque os físicos, em geral, são muito atuantes na Academia, mas porque, creio, é o departamento com maior número absoluto de doutores e de artigos publicados (em periódicos de circulação internacional) na UFPR, ou seja, de maior expressão acadêmica.

Acredito que temos no atual departamento de física duas áreas de pesquisa bem distintas: teóricos mais fundamentais, físicos-matemáticos, etc, e outro grupo que faz física experimental e aplicada ou instrumentação. São duas áreas que têm que conviver num mesmo departamento. Seria interessante recriar o Instituto de Física (como existe ainda na UFRGS, UFBA, etc., ou mesmo o Setor de Ciências Físicas) com dois ou três departamentos. Isto não deve ser tão difícil: o Direito criou o Setor de Ciências Jurídicas e, recentemente, o André Bittencourt & Co. criou o Setor de Ciências da Terra com três departamentos. Creio que com isto teríamos muito mais autonomia, mais recursos e menos conflitos de interesses.

Para o problema do aumento da carga didática e diminuição do número de professores do Departamento:

1) Levantamento da real necessidade de turmas e de professores para tais turmas (eu, ontem, dei aula para apenas um aluno numa turma onde estão matriculados 45 alunos). Priorizar ao máximo a redução do número de turmas. Levar em conta que o número de alunos que assistem às aulas é bem menor do que os matriculados, especialmente depois da primeira prova. Integração para as disciplinas básicas, com a concordância prévia dos professores participantes e com um professor sênior (não necessariamente velho) como coordenador. Juntar turmas, com a necessária concordância prévia dos professores envolvidos. Resistir a pressão dos coordenadores de curso por mais turmas.

2) Instituir a aula magna (Argentina, Alemanha, França, etc). Ou seja, turmas de 300 ou mais alunos para as aulas teóricas. Tutoria, usando também os alunos de pós-graduação, para as aulas de laboratório e de resolução de problemas.

3) Utilização maciça da tecnologia moderna de ensino. Data-show, modelagem computacional (Interactive Physics?), internet, etc. Aula em vídeo rodando continuamente na rede. Liberar um professor do departamento de sua carga didática, por um ano, para se dedicar integralmente à um projeto nessa direção, inclusive para ir atrás de financiamento para isto e para treinar os outros professores do departamento. Ou contratar um especialmente para isto. Provas a serem feitas no computador: o aluno sorteia os problemas e resolve, no computador.

4) Reagir, até com greve se for necessário (assim como fizeram as Ciências Humanas na USP), ao aumento da carga didática do Depto. sem aumento do número de professores. Não fazer “cambalachos” quanto a isto (se nos derem mais n salas, ou m equipamentos, ou p técnicos, ou etc., nos aceitamos mais x alunos sem aumento do número de professores).

Para aumentar o índice de formandos, sem abaixar o nível de cobrança:

No caso específico do curso de física.

1) Melhorar o nível médio de formação dos alunos que entram. Como? Fazendo “propaganda” nos colégios de segundo grau, não de forma incipiente e por iniciativas individuais, como, talvez, esteja sendo feito agora, mas sim com um planejamento visando a qualidade e a quantidade. Com isto tornar as vagas do curso mais competitivas e, por isto, melhorar o nível médio dos calouros tendo, como consequência, o aumento do número de formandos sem abaixar a qualidade de sua formação. Acionar a Assessoria de Comunicação para divulgar a profissão de físico e o curso de física.

2) Criar a opção de curso de “Engenharia Física” (v. S.Carlos). Muitos jovens gostam de física mas querem um diploma de engenheiro. Talvez, se associar com o Depto. de Eletricidade para tal objetivo.

No caso geral de todos os alunos do Departamento de Física (e da UFPR):

1) Valorizar o sucesso acadêmico dos alunos. Por exemplo, fazer homenagens para o melhor aluno (melhor IRA?) de cada turma, garantir uma bolsa de iniciação científica para o melhor aluno depois do 2o. ano do curso.

2) Não permitir a quebra de pré-requisitos, a não ser em casos excepcionais. Forçar a eliminação da UFPR dos péssimos alunos e dos alunos “profissionais” (jubilamento menos permissivo?) que degradam o ambiente e que se esforçam para abaixar o nível acadêmico.

3) Reagir aos coordenadores de curso que reclamam do nível de reprovação dos alunos mas que não querem saber por que isto acontece.

4) Trabalhar contra a impunidade. Aluno que desrespeita o professor deve ser punido.

Para a pesquisa:

1) Trazer lideranças científicas para o Depto, ou seja, pesquisadores com projeção nacional e internacional, sejam eles do país ou do Exterior. Esses trazem ou agrupam em torno deles os pós-doc de bom nível.

2) Financiamento: entrar em contato com grupos de pesquisa que estejam recebendo financiamento no momento e descobrir como eles estão fazendo.

3) Consultar os grupos de pesquisa do departamento para saber e tentar resolver os problemas que estão dificultando a pesquisa, no momento (nem sempre é dinheiro).

4) Professor-visitante deve ser visitante para fazer pesquisa e não para dar aula na graduação.

Gilberto, eu só resolvi responder à tua sugestão de participar da discussão do futuro do Departamento e da UFPR por que acredito nas tuas boas intenções e conheço tua competência para lidar com assuntos difíceis como estes. Espero estar contribuindo positivamente, com as críticas e sugestões acima, para um melhor futuro do Departamento e da Universidade.

Acredito que as sugestões e debates feitos pela rede sejam mais produtivos e produz menos atritos do que fazer reuniões, para as quais ninguém tem tempo e todos estão saturados. Conversei com o Carlos sobre abrir um Forum na rede para este assunto e ele disse que é relativamente fácil de fazer. Temos que encontrar quais são os problemas mais importantes que sejam reconhecidos como tais pela maioria dos professores do departamento e tentar, então, encontrar soluções. Para aqueles problemas onde há muitas divergências, deixar de lado até que haja um novo tipo de administração na UFPR.

As idéias acima não foram estruturadas por absoluta falta de tempo.

Sinta-se livre para usar este texto da maneira que quiser, ok?

Espero receber algum retorno sobre o que foi dito acima. E, lembre-se, acho que você seria um ótimo candidato para chefe do departamento.

Um abraço,

C.Cusatis, 21/10/2002.

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