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O PROBLEMA NA UNIVERSIDADE

Por Clóvis Cavalcanti*

Em novembro de 2002, fui convidado pelo pró-reitor de pesquisa da Universidade Agostinho Neto (de Angola), João Serôdio, para dar uma palestra na sua Faculdade de Economia. Chegando em cima da hora, o prof. Serôdio me aguardava impaciente. Disse-me: “Vamos direto ao auditório porque todos já estão lá a sua espera”. Ao ingressar no salão, encontrei-o …lotado (umas 120 pessoas). Surpreendi-me com o fato de todos ficarem de pé com nosso ingresso no recinto. Ao término da conferência, permaneci no tablado de onde falara atendendo a membros da audiência que me procuravam para troca de idéias. A certa altura, o prof. Serôdio me advertiu para que eu saísse, pois o público só iria embora quando isso acontecesse. Percebi, então, que a platéia continuava ali, de pé. Saí junto com o pró-reitor e logo vi que os participantes do evento nos seguiam em procissão. Muito diferente do padrão das universidades brasileiras. Em julho último, por exemplo, convidado, falei no Fórum Brasil em Questão, da Universidade de Brasília. A platéia no início da sessão era de 140 pessoas. No final, era de menos de 50 (tenho o hábito de fazer esse tipo de contagem). Nas quase três horas de sua duração, todo momento entrava e saía gente.

Infelizmente, em geral é assim que funcionam também nossas salas de aula. Sou professor da UFPE desde 1965 (não penso em me aposentar). Nas turmas de graduação onde ensino, o número de alunos que comparece às aulas varia enormemente. Num dia pode haver 15 pessoas, no outro 29. Numa classe de 28 estudantes que tenho em Ciências Ambientais (leciono aí Meio Ambiente e Sociedade), comecei outro dia a aula com 10 alunos; o número subiu para 14 e, meia-hora antes do fim, era de apenas seis. Minha experiência em universidades estrangeiras – até mesmo em países como o Equador (dei aulas na Universidade de Cuenca) – mostra muito mais compromisso e seriedade do corpo discente. Estudei em Yale e fui professor visitante em Oxford. Nessas duas notáveis universidades, que estão entre a dez melhores em todas as listas que dão conta dos centros universitários mais importantes do mundo, é impressionante a observância dos rituais. Isso inclui comparecimento maciço dos alunos às aulas. E também assiduidade exemplar dos professores. Em muitos departamentos de Oxford funciona um sistema em que as sessões professor-aluno são individuais. Obviamente, nesse caso, ninguém pode faltar.

É incrível como há professores de tempo integral nas universidades brasileiras que faltam bastante a seus compromissos docentes. No meu tempo de estudante da Universidade do Recife (belo nome primitivo da feia designação atual da UFPE), em 1960-1963, isso também acontecia com alguns dos membros da congregação. Havia até quem desse umas cinco aulas apenas por semestre (ou que desse muitas, mas desprovidas de qualquer conteúdo). Havia, porém, os assíduos – e excelentes – mestres, a exemplo de Ivan Loureiro, Manoel Correia, Fernando Mota, Heraldo Souto Maior. O descaso atual do corpo docente estimula que os alunos façam corpo mole. É certo que os salários hoje são muito ruins. Em 1971, em dedicação exclusiva, eu ganhava entre 10 e 11 mil reais, a preços de hoje, na UFPE. Por outro lado, faltam condições de infra-estrutura nas nossas instituições acadêmicas. As salas de aula, muitas vezes, são inadequadas, antiecológicas, desconfortáveis. Diferente do que acontece nos grandes centros do saber (Yale, Oxford) e até em centros menores (Lisboa), os quadros-negros foram substituídos aqui por lamentáveis “quadros-brancos”, que exigem o uso de pincéis que secam com facilidade, desestimulando o agradável trabalho docente de explicar as coisas na hora com rabiscos de giz, sem data-shows ou … transparências pré-elaboradas que impedem a criatividade. Nossas bibliotecas pecam por deficiências de vários matizes.

Como disse The Economist, em número de setembro de 2005, dedicado à Universidade, “Educação não é apenas a transmissão de um conjunto de fatos, o que a Internet faz muito bem. Trata-se de aprender a argumentar e raciocinar.E isso só se consegue melhor numa comunidade de estudiosos”. Assim, é lamentável a deterioração que se sente no nosso mundo acadêmico, cada vez mais carente de método, compromisso e disciplina; cada vez mais distante da “comunidade de estudiosos” de que o desenvolvimento genuíno do país carece.

*Clóvis Cavalcanti – Economista e Pesquisador Social

Onde Publicou: (Diário de Pernambuco de 10.09.2006)

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