Início > Universidades Federais > A GREVE COMO FACTÓIDE

A GREVE COMO FACTÓIDE

Por João Cezar de Castro Rocha*

Se os resultados das greves são praticamente nulos, quando não fracamente negativos, por que insistir nas paralisações, como se ainda estivéssemos enfrentando um regime autoritário?

Nos últimos anos, as universidades públicas têm promovido greves constantes. De um lado, sua … repetição pode ter ocasionado uma perda irreparável na formação de uma geração de alunos – o ”fenômeno” das greves já dura pelo menos uma década. De outro, os ganhos reais obtidos com as paralisações são cada vez mais irrelevantes.

Vale, então, perguntar sem receio de parecer conservador: por que insistir na greve como instrumento principal para a expressão de reivindicações (legitimas)? Se os resultados das greves são praticamente nulos, quando não francamente negativos, por que insistir nas paralisações, como se ainda estivéssemos enfrentando um regime autoritário?

As práticas do sindicalismo universitário parecem ignorar que o tempo não para. Os discursos das assembléias, os manifestos e os cartazes, as ações propostas revestem-se de um anacronismo que seria divertido, se suas conseqüências não fosses preocupantes.

O sindicalismo universitário não se adaptou à dinâmica do regime democrático. Se é verdade que, diante da ditadura, o velho provérbio era oportuno – ”Hay gobierno, soy contra” -; nas circunstâncias de uma democracia, precisamos aprender a negociar, isto é a fazer concessões para obter ganhos reais. Já os grevistas assumem posições intolerantes, que inviabilizam o diálogo, em lugar de construí-lo.

Pode-se objetar que tal análise também é intransigente. Mas não é verdade que os movimentos de reivindicação nas universidades públicas tornaram a greve um ponto de partida e não o último recurso, em face do fracasso das negociações? Como negociar, se o primeiro ato é a decretação da greve?

Talvez nesta inversão lógica resida o esclarecimento do ”fenômeno”. A greve transformou-se no factóide do sindicalismo universitário. Ora, a esmagadora maioria dos professores, funcionários e alunos não mantêm uma relação assídua com seus respectivos sindicatos ou associações. No dia-a-dia da universidade, seus membros passam inteiramente despercebidos: são virtualmente invisíveis, devido ao caráter anacrônico e autoritário de suas atitudes.

Por isso, a greve revela-se tão importante, transformando-se numa finalidade em si mesma. Ela não tem como objetivo encerrar vitoriosamente uma negociação. Pelo contrario, o êxito depende de sua duração: quanta mais longa a paralisação, mais vitorioso o movimento. Por quê? Porque a greve representa o único período em que o sindicalismo universitário adquire visibilidade; é somente durante as longas, repetitivas e em geral inúteis greves que os alunos, funcionários e professores são obrigados a reconhecer sua existência.

Assim, num cartesianismo perverso, criou-se um novo discurso do método: ”Faço greve, logo existo”.

Vivemos, porém, um momento histórico. Em diversas universidades pública, professores e alunos comprometidos com o ensino público gratuito e de qualidade não aderiram a greves intempestivas. Por exemple, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), apesar de uma prolongada e instigante paralisação, decidida por uma minorai de funcionários, os professores e os alunos concluiriam com êxito as aulas do primeiro semestre e começaram na segunda-feira da semana passada (23/8) as atividades do segundo semestre. Os professores e alunos da Uerj não estão em greve e não apóiam a radicalização suicida de suas associações.

É importante que se saiba desse fato, pois nosso discurso é outro: ”Ensino, aprendo, logo existo”. Discurso que pode dar o passo decisivo: estreitar os laços entre a Uerj e a população do Estado do Rio de Janeiro.

*João Cezar de Castro Rocha – é professor de literatura comparada da Uerj.

Publicado Por: (Jornal do Brasil, 31/8)

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: